quarta-feira, junho 15, 2005

COMPRA UM CARRO!!!!

Hoje eu vinha de ônibus pro jornal, quando percebi a presença de um daqueles vendedores de doces querendo adentrar o veículo. Vendo que o motorista havia deixado, logo pensei: "que merda, lá vem aquele cara atrapalhar o silêncio da minha viagem..." e não deu noutra! O cara entrou, saiu colocando aquelas barras de cereal "nutritivas" nos nossos colos e, quando chegou lá na frente - e isso era bem perto de mim - gritou a plenos pulmões: "BOA TARDE, SINHORES PAÇAGEIROS! DESCULPE INCOMODAR O SILENSSIO DE SUA VIAGEM, MAS EU TRAGO NA PROMOSSÃO...". Logo fiquei impressionado de como esses caras sempre estão fazendo promoção de alguma coisa, de como o produto custa pelo menos o triplo (segundo eles) nas padarias e confeitarias, de como eles sabem que suas vozes invariavelmente estridentes incomodam o silêncio de nossa viagem e de como qualquer coisa, de bala a tabuada versão 2005, é o passatempo de nossa viagem! Depois, pensando friamente (e imerso em silêncio), concluí que o cara não faz aquele papel porque quer. Talvez ele quisesse ir trabalhar num escritório limpinho, com pessoas mais educadas passando e sob um refrescante ar-condicionado, ou mesmo estar em casa com o filho vendo o vídeo-show ou algum outro programa de futilidades. É, ser o desempregado inconveniente é ruim. Não acredito que poderia estar "roubando ou matando" como costumam ameaçar, usando como escudo sua fraca condição social: eles são, sim, trabalhadores e esforçados, mas, acima de tudo, chatos!

Mas apesar dessas figuras, tenho que reconhecer que as mudanças na questão dos transportes nos últimos 7 anos foram significativas. Há uns 3 anos, quando o sistema de entrada pela frente dos ônibus começou a ser implantada eu, no trecho entre Vila Isabel e o Aeroporto Santos Dummont, cheguei a contar 5 malas entrando pra vender alguma bosta. Às vezes, o que entrava vendia exatamente a mesma coisa do que saía. Hoje, os malas dependem da boa-vontade dos motoristas, que, agora privados de "presentinhos", frequentemente recusam sua entrada. A segurança dos bancos atrás do mesmo era, digamos, precária, pois pois pouca gente procurava sentar lá e o acesso era muito fácil. Algumas coisas permaneceram na mesma, como o fato de os motoristas arrancarem e frearem bruscamente deixando metade das pessoas no chão, quase todos idosos. Aliás, justamente esses são os que mais têm sofrido, seja na modernidade, seja na antiguidade: é meio absurdo cobrar deles o uso correto de um cartão que nem mesmo os jovens ignaros conseguem usar direito. Com o vale-idoso, pelo menos, eles passavam ilesos por essa humilhação.

Tocando no assunto do cartão, talvez ele fosse uma grande promessa, mas ainda decepciona: a intenção inicial era acabar com a corrupção nas vendas de vales-transporte, no que, por enquanto, há sucesso, mas acabou causando problemas para os usuários, que em alguns casos acabam roubados no crédito, além de não poderem utilizá-lo nas vans. Bem, neste caso em particular, os empresários de ônibus riem à toa, afinal, o transporte alternativo os deu muitas dores de cabeça e este foi o grande troco. Claro que eles, que nunca pegaram um ônibus na vida, não sabem adiferença entre ir confortavelmente sentados na van e espremidos em pé em seus veículos.

A gratuidade nunca foi tão atacada como nos últimos anos, em que primeiro segregaram os não pagantes, depois limitaram cada vez mais o número de bancos para eles, e por último, voltaram a misturá-los com os outros passageiros mediante a passagem do famigerado cartão e da famigerada roleta, mesmo os cadeirantes, cegos, velhos e deficientes em geral. Só quem dependia do jalecão do CEFET podia medir o transtorno de implorar a entrada no veículo para um cara que não tinha nem metade da instrução e da educação de um aluno do segundo grau. Bem, reconheço que, pelo menos com o cartão, acabou esse negócio de neguinho comprar jaleco só pra entrar de graça no coletivo.

Realmente, o transporte no Rio precisava mudar, se modernizar, mas será que toda essa modernidade compensou os empregos dos cobradores? Que tal então os motoristas que são demitidos como "senior" e readimitidos como "júnior", perdendo assim quase metade do salário?O que resta como pergunta final é: os fins compensam os meios?

Gustavo Moore escreveu este post tão sério que pensa em tomar o emprego do Datena